Mais inteligente do que se imagina, o intestino comunica-se com o cérebro e sua flora pode influenciar o humor e outros desequilíbrios pelo corpo.

Artigo publicado na Revista VIVER – Viver com qualidade, do Hospital Sírio Libanês

Novos estudos têm revelado que estresse, ansiedade, obesidade, insônia, depressão e até doença de Parkinson e de Alzheimer podem estar relacionados ao funcionamento do intestino. Ele é o órgão do corpo humano que alguns cientistas já denominam de segundo cérebro porque detém meio bilhão de neurônios e cerca de 30 neurotransmissores. Por exemplo, 50% de toda a dopamina e 90% da serotonina do corpo humano estão lá. Sua função? Garantir a absorção da energia e dos nutrientes presentes nos alimentos. Mas, de acordo com as pesquisas recentes, os neurônios intestinais podem também interferir no “primeiro cérebro”, afetando emoções e comportamento.

A digestão é um processo complexo e vital para a sobrevivência no mundo animal, pois assegura energia a esses seres vivos. Por isso, no decorrer da evolução, os organismos animais desenvolveram uma rede de neurônios no sistema digestivo, destinado a controlar o processamento dos alimentos. Esse sistema sofisticou-se com o passar do tempo, tornando-se capaz de obter energia de diversos tipos de alimento. Al´[em disso, é o responsável por achar e expelir toxinas do organismo para garantir a sobrevivência no caso de ingestão de veneno ou de coisas estragadas. Hoje, a rede de neurônios digestivos constitui um complexo muito desenvolvido que ganhou a denominação de Sistema Nervoso Entérico (SNE), presente nos animais vertebrados em geral.

No decorrer da evolução, os organismos animais desenvolveram uma rede de neurônios no sistema digestivo, destinada a controlar o processamento dos alimentos e que se sofisticou com o processamento dos alimentos e que se sofisticou com o passar do tempo.

O intestino humano mede cerca de 9 metros, subdividido entre delgado e grosso. O delgado começa no estômago e vai até o início do intestino grosso. Toda essa extensão é ocupada pelo SNE e sua rede de neurônios, que fica atrás das mucosas processam os alimentos. Todos os seres humanos nascem com esse sistema, que evolui com o crescimento. Os recém-nascidos não podem, por exemplo, digerir certos alimentos que um bebê de 6 meses consegue, e assim sucessivamente até o amadurecimento do órgão.

Assim que o organismo recebe um alimento, os neurônios do intestino ordenam a liberação de enzimas e suco gástricos para digeri-lo. Se esses neurônios detectarem comida estragada, veneno ou outro item tóxico, a ordem é expeli-los do organismo por meio do vômito, por exemplo. Do contrário, tão logo entendam que o alimento foi devidamente aproveitado, ordena que vá para o intestino grosso, e outro neurônios mandam o intestino empurrar o bolo alimentar remanescente para ceder o lugar. Da mesma maneira é o SNE que avisa que o organismo está saciado e ordena que pare de liberar o hormônio da fome, a grelina. O processo se encerra quando o SNE informa a necessidade de expelir as sobras, e o sistema nervoso central passa a agir.

Microbiota no laboratório

Nem toda bactéria presente no organismo é nociva. A maioria, aliás, é essencial para o bom funcionamento do corpo. De acordo com o estudo publicado em 2016 pelo Weizmann Institute of Science,de Israel, um homem de média estatura, por exemplo, tem cerca de 39 trilhões de bactérias e 30 trilhões de células humanas. Essa população bacteriana ganhou o nome de microbiota, e sua maior concentração está no sistema digestivo. Localizdas no intestino, 300 espécies de bactérias benéficas ajudam no processo de digestão. Mas, eventualmente, podem atuar de outra maneira.

Cientistas da Universidade Cork, na Irlanda, descobriram que bactérias da espécie Lactobacillus rhamnosus, presente em iogurtes, podiam alterar o comportamento de ratos de laboratório. Uma parte desses ratos foi alimentada com o iogurte que continha a bactéria e a outra, não. Os que consumiram apresentaram mais disposição para sobreviver (atravessar labirintos, nadar). Um rato normal de laboratório nada em média 4 minutos, depois desiste e boia, mas os que tomam iogurte com Lactobacillus rhamnosus nadam 50% mais. Além disso, aparentavam estar mais calmos que os outros. Examinando-os depois, o estudo comprovou que o sangue deles tinha 50% menos corticosterona, substância ligada ao estresse, e que o ácido goma-aminobutírico (GABA), neurotransmissor que reduz a ansiedade, estava mais bem distribuído. Isso foi em 2011. As bactérias do iogurte alteravam o “segundo cérebro” e este influenciava o “cérebro principal” graças à microbiota. Em um último teste, os cientistas cortaram o nervo vago (canal que liga o sistema digestivo ao cérebro, também existente em humanos) e o iogurte com o lactobacilo não funcionou da mesma maneira.

Em 2013, uma equipe da Universidade da Califórnia demonstrou que o fenômeno se repete em humanos. Os pesquisadores recrutaram 36 voluntárias e as dividiram em 3 grupos: um tomou ioguerte com 4 tipos de bactérias (bifidobacterium, lactococcus, lactobacillus e Streptococcus) por um mês. O outro tomou placebo, uma espécie de iogurte sem bactérias. O terceiro manteve a própria dieta. Foram feitos exames de ressonância magnética no cérebro dessas mulheres antes e depois do estudo, e o resultado mostrou que as bactérias interferiram em regiões que processam emoções, sensações e até funções cognitivas. Caíram as atividades de regiões responsáveis por estímulos do corpo, como a fome, o tato e outros sentidos. E subiram as conexões entre a massa cinzenta (periaquedutal), que ajuda a controlar a dor, e o córtex pre-frontal (a área racional).

Os estudos para entender de que forma os neurônios presentes no intestino atuam no cérebro não estão encerrados. Há pesquisas em andamento sobre diversos males que podem estar relacionados ao desequilíbrio da microbiota. Está provado, no entanto, que, com a ajuda das bactérias, o aparelho digestivo pode afetar seu humor e vice-versa. Os especialistas afirmam que elas têm papel de reguladoras intestinais e, se prejudicadas, podem gerar desequilíbrios no organismo.

 

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